16 de ago. de 2025

Melanie Klein e a vida intrauterina - um território não explorado.

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Não há base numa citação direta de Klein. Mas o pensamento kleiniano, com sua ênfase no inato e na pulsão de morte, abre um campo teórico, para incluir a vida intrauterina como um cenário de fantasias primitivas. Foco nos conceitos que abrem espaço para a minha ideia, mesmo que a própria Klein não tenha explorado esse espaço e encontro uma base indireta, em dois conceitos-chave da teoria kleiniana:

► Klein estabeleceu que a pulsão de morte é inata e que a fantasia é uma realidade psíquica. Partindo dessas duas premissas, entendo que a vida intrauterina, o primeiro ambiente do indivíduo, é o cenário onde a pulsão de morte já atua, e onde as primeiras fantasias se formam, mesmo que de forma rudimentar, como sensações e estados psíquicos.

 ​1. A Pulsão de Morte e o Inato

​Melanie Klein se diferencia de Freud ao postular que a pulsão de morte é uma força destrutiva e inata, presente desde o nascimento. Para ela, essa pulsão não é apenas uma ideia teórica; ela se manifesta na forma de uma angústia primordial, que o bebê projeta para fora em um ambiente hostil.

​A vida intrauterina é, por definição, um estado de proteção contra o ambiente externo. O nascimento, por sua vez, é um evento dramático, de separação e exposição. A pulsão de morte, sendo inata, já está ativa no útero. A angústia - o afeto dessa pulsão - seria desencadeada pelo nascimento. A fantasia inconsciente, então, não seria sobre o útero em si, mas sobre o medo da aniquilação (a pulsão de morte) que o bebê sente ao vir ao mundo.

​Embora Klein não mencione o útero, ela não nega a existência da pulsão de morte antes do nascimento. Portanto, minha premissa é que se a pulsão de morte existe desde o início da vida, também existem, as fantasias a ela associadas.

2. A Fantasia como "Realidade Psíquica"

Klein foi pioneira ao tratar as fantasias inconscientes como uma realidade psíquica, tão importante quanto a realidade externa. Para ela, o bebê não apenas reage ao seio materno; ele o molda em uma fantasia, transformando-o em um "seio bom" ou "seio mau".

​A vida intrauterina é o primeiro e mais primitivo ambiente do indivíduo. A sua experiência neste ambiente, mesmo que seja de forma rudimentar (movimentos, sons abafados, sensações de calor e frio), poderia ser a matéria-prima para as primeiras fantasias.

​O bebê não precisa ter consciência do útero como um objeto externo para ter uma fantasia sobre ele como uma realidade psíquica. O útero é a primeira "realidade interna" do bebê, e que as sensações de aconchego ou, em contrapartida, de restrição, já seriam as primeiras fantasias. Nesse sentido, a fantasia não seria sobre o útero como um objeto externo, mas sobre as sensações e os estados de ser que o bebê experimenta dentro dele.

 Referências

• Klein, M. (1996). Obras completas de Melanie Klein: Vol. 1 - Amor, Culpa e Reparação e Outros Trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago. (para os conceitos de Pulsão de Morte e Inato) - Klein realmente postula que as fantasias são inatas e que a pulsão de morte existe.

- Estágios Iniciais do Conflito Edipiano (1928) - Klein descreve a natureza inata da angústia e das fantasias primitivas. O conceito de "posições" (esquizo-paranóide e depressiva) é central aqui e a base para isto já existia no útero.

• ​Ferenczi, S. (2011). Thalassa: Ensaio sobre a Teoria da Genitalidade (Originalmente publicado em 1924) - Conceito de regressão à vida intrauterina e a ideia de que o nascimento é um trauma que inicia uma busca por um estado de fusão e segurança. Ferenczi é a principal referência que conecta a psicanálise à vida intrauterina.

• ​Bion, W. R. (1991). Obras completas de Wilfred R. Bion: Vol. 1 - Experiências com Grupos (Originalmente publicado em 1961). Rio de Janeiro: Imago.

• ​Winnicott, D. W. (1983). O Ambiente e os Processos de Maturação (Originalmente publicado em 1965). Porto Alegre: Artes Médicas. Os conceitos de "dependência absoluta" e "holding", descrevem um estado em que o bebê e a mãe formam uma unidade, um eco da vida uterina.

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14 de ago. de 2025

Entrevista - Adultos adotam chupeta para aliviar estresse e ansiedade

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(Entrevista concedida à TV Correio - Programa Com Você) - AGO/25

1. O que está acontecendo com os adultos?

Concordo que há uma “busca por conforto ou segurança emocional, a partir de objetos associados à infância. Há objetos que ajudam a criança a lidar com a ansiedade da separação, e na Psicanálise, há um conceito chamado de objetos de transição, de Donald Winnicott. Para adultos, a busca por objetos ou atividades que remetem a um tempo de menos responsabilidades pode ser um mecanismo de autorregulação emocional, porém, que merece um olhar cuidadoso.

2. Quais os limites entre bem-estar e escapismo?

O bem-estar é quando o objeto ou comportamento complementa a vida adulta. Por exemplo, usar um chaveiro der um personagem de um desenho, na bolsa, enquanto a pessoa continua a enfrentar suas responsabilidades e desafios. O escapismo, por outro lado, é quando o comportamento substitui a vida adulta. Se a pessoa usa esses objetos ou comportamentos para evitar responsabilidades, compromissos ou enfrentar problemas reais, tornando-se uma muleta constante que impede o crescimento e a maturidade, aí entramos em uma zona de atenção.

3. Infantilização ou busca segurança emocional?

A vida moderna impõe uma carga imensa de estresse, incertezas e pressão por produtividade. O esgotamento mental é real. Diante de uma sobrecarga de informações e responsabilidades, o cérebro busca atalhos para se acalmar. Os comportamentos associados à infância representam um tempo de menor responsabilidade, maior cuidado e proteção. Não é imaturidade, mas uma estratégia, não recomendada, para lidar com a exaustão emocional.

4. Quais os efeitos psicológicos de buscar conforto em objetos infantis?

Podem proporcionar um alívio momentâneo do estresse, uma sensação de calma, segurança e conforto. Funcionam como uma "pausa mental" necessária. Se o uso desses objetos se torna a única forma de lidar com o estresse, pode haver um prejuízo no desenvolvimento de mecanismos de enfrentamento (coping) mais maduros. Isso pode levar a uma dependência emocional e à evitação de problemas, em vez de enfrentá-los de forma construtiva.

5. Chupeta como regressão? Quais os riscos?

Sim, este fenômeno que vêm chamando a atenção por causa das redes sociais, pode ser visto como um ato de regressão psicológica, pois remete a uma fase de desenvolvimento precoce. O cérebro associa o ato de chupar a sucção do leite, que é sinônimo de nutrição, segurança e calma. É uma tentativa de reativar esses sentimentos. Riscos físicos: o uso prolongado pode causar problemas dentários, como má oclusão. Riscos psicológicos: se a chupeta se torna o único "dispositivo" para acalmar a ansiedade, a pessoa pode deixar de desenvolver habilidades internas de autorregulação, gerando uma dependência emocional do objeto e nutrindo uma fuga, um atalho que impede de processar e resolver a causa real de sua angústia.

6. Como a sociedade pode apoiar os adultos?

O primeiro passo é parar de julgar, pois a busca por conforto não é um sinal de fraqueza, mas de uma necessidade humana legítima. E a maior ajuda que a sociedade pode oferecer é normalizar a terapia e a conversa sobre saúde mental. Se uma pessoa sente a necessidade constante de se refugiar em objetos infantis, isso pode ser um sinal de que precisa de apoio para desenvolver estratégias mais robustas para lidar com o estresse. Criar ambientes de trabalho e relacionamentos mais empáticos, onde as pessoas sintam segurança para expressar suas vulnerabilidades, sem medo de serem rotuladas.

7. Estratégias para lidar com o estresse de forma madura

- Mindfulness e meditação, Exercícios físicos regulares, Higiene do sono, Terapia, Hobbies e conexões sociais.

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31 de jul. de 2025

Formas de oferecer colo ao seu Sistema Nervoso Central

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 Seu sistema nervoso central (SNC) merece colo:

1. A corregulação é necessária para nossa sobrevivência. Busque a presença/abraço pontual de alguém para te ajudar a respirar melhor, desacelerar os batimentos e voltar para si.

2. Deite no chão por 10 minutos: sem pressa, sem meta. Só deixe a gravidade te acolher; ou coloque os pés descalços no chão. Seu corpo sabe voltar ao centro quando tem permissão pra parar.

3. Cante baixinho, pra si mesma: A vibração da sua voz conversa com o nervo vago e diz: "Está tudo bem agora", convidando o corpo a voltar para o modo descanso. 

4. Toque seu próprio peito e sussurre: "Eu estou segura". Esse gesto é como um botão secreto de aterramento, quando tudo ao redor parece demais.

5. Troque tempo de tela por céu: Mesmo que seja por 1 minuto. Olhar pro céu expande, acalma e realinha. Um detox de estímulo visual direto pro sistema nervoso.

6. Enrole-se num cobertor como um casulo: Especialmente depois de uma conversa difícil. Isso recria uma sensação de ninho e desliga os alarmes do sistema.

7. Permita-se chorar, sem tentar "consertar" nada. As lágrimas são uma forma natural de descarregar o estresse. Reprimir mantém o sistema travado.

8. Beber algo quentinho, devagar, sem fazer mais nada. Isso comunica ao corpo: "Tenho tempo, não preciso correr".

9. Dar pequenos e suaves pulos libera energia contida. Assim como, usar almofadas para apertar ou bolinhas terapêuticas.

10.  Criar rituais simples e intencionais como acender incenso, vela, desenhar ou alongar-se, sinalizam segurança para o seu sistema nervoso.

11. Nomeie o que você está sentindo: o que você pode ver, ouvir, tocar?

12. Faça algo com total presença, mesmo que seja apenas lavar as mãos.

13 Alongue o corpo como se estivesse acordando de um longo cochilo.

14. Crie ritmo: balance, ande, costure, toque, cante, repita uma afirmação positiva. 

15. Tome um banho lento e deixe a água te acalmar.

● Seu corpo tem um botão natural de desligar a ansiedade. Chama-se NERVO VAGO.

Você já se sentiu ansiedade, coração acelerado, aperto no peito, respiração curta... Mesmo quando "tudo estava bem"? Pode ser um sinal de que seu nervo vago está desregulado, pois ele é como um "freio de emergência" natural. Acalma seu sistema depois de uma ameaça, diminui o batimento cardíaco, desacelera a respiração, relaxa os músculos. É assim que seu corpo sabe que está seguro. Mas quando há falhas, o corpo continua agitado, mesmo sem motivo. Você entra em estado de alerta constante. Resultado? Ansiedade, insônia, tensão e até problemas digestivos.

- Sinais de que o nervo vago pode estar frágil:

Dificuldade para relaxar; respiração curta e rápida; sensação de nó na garganta ou peito;

Crises de ansiedade "do nada"; sensação de estar sempre exausto. 

- A boa notícia? Dá pra reativar esse nervo e recuperar a sensação de segurança no corpo. 

✨ Experimente a técnica do "humming consciente" (zumbido consciente). 

Feche os olhos e, com os lábios juntos, faça um som de "hummm..." por 10 segundos. Repita 3 vezes, sentindo a vibração na garganta e no peito.

Isso estimula diretamente o nervo vago e ajuda seu corpo a entrar em estado de calma, de forma rápida.

● Criei mcromomentos de segurança:

→ melhore sua higiene do sono

→ construa uma rotina matinal (nem que seja 15min)

→ use binaural beats para foco e meditação

→ cure sua relação com o dinheiro

→ fortaleça os laços familiares

→ aprenda a perdoar

→ estude linguagem corporal

→ selecione 3 temas novos que você gostaria de aprender

→ crie rotinas de contato com a natureza e colocar o pé na terra

→ saia para tomar café

→ afaste pessoas tóxicas da sua vida

→ reprograme sua conversa interna. 

- Você não precisa esperar as férias para relaxar. Habitue seu sistema para se sentir seguro em momentos cotidianos.

- Acenda uma vela antes de uma chamada do Zoom

- Faça uma pausa de 2 minutos para alongar e respirar entre as tarefas

- Ouça música instrumental enquanto responde e-mails

- Repetição = reparo do sistema nervoso. Quanto mais você faz, mais seguro seu corpo se sente.

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