18 de abr. de 2020
O que Freud diria? (Em meio à Pandemia do Covid-19)
Primeiro ele contaria uma história: a dele. Diria que viveu a
experiência do sofrimento da gripe espanhola. Diria que perdeu ali, sua filha
Sophie. Ah, perdão. Diria antes que, foram anos muito difíceis com a Primeira
Guerra que deixava rastros de dor e parcos escritos. Talvez porque, com a dor
não seja ou não fosse tão possível escrever, para ele. Diria que houve
inflação, falta de suprimentos de infraestrutura nos transportes e nas
comunicações. Diria que sua família recebeu ajuda financeira da Max Eitington,
médico e psicanalista da Bielorussia - Alemanha - e seu amigo. Freud diria que
não se deixou paralisar, pois cuidar da sua família e atender pacientes que o
procuravam e conseguiam pagá-lo, era uma forma de lidar com a impotência diante
da situação. Diria que dias antes, num cordial almoço de domingo, recebeu o
filho de Pfister, seu amigo discreto, psicanalista, teólogo e pastor. E diria
também que era ateu, Freud. Diria em seguida que logo passaram pela tragédia
que os marcaria para sempre. “A descarada brutalidade dos tempos nos aperta”.
Continuaria a dizer sobre começo: não pôde se despedir da filha e isto parece
ter lhe causado uma ferida narcísica. E então: “trabalho tanto quanto posso...”,
em gratidão pela possibilidade de não ser paralisado pela morte. Que a
esperança também compareça entre nós, em 2020. Freud diria que a Todestrieb (pulsão
de morte) é difícil de sustentar e, talvez, escrever tenha o ajudado a
atravessar.20 de out. de 2019
Intervenção precossíssima com Bebês
Vamos conversar sobre o desenvolvimento sensório - motor normal e atípico dos bebês, considerando a integração sensorial e a formatação corporal - da vida intrauterina até a marcha - considerando as necessidades de intervenção na clínica Psicanalitica com bebês (entre 0 e 2 anos de idade) com caráter precossissimo, pois as intervenções acontecem em tempo anterior à cristalização de defesas patológicas, atuando na intersubjetividade primária.
Primeiro: o nascimento de um bebê não é ruptura, é continuidade, mas que precisa de uma organização sensorial e gravitacional para dar conta das novas demandas: respiração, alimentação, lidar com as sensibilidades profundas. Uma curiosidade para compreender ainda mais sobre a sensibilidade do bebê, é que o líquido amniótico tem a mesma densidade do bebê.
Segundo: O corpo do bebê é uma representação do organismo e vai se constituindo no movimento, na relação com o outro, pois o sentido tátil, por exemplo, é um envelope corporal, bem como, a comunicação que faz ligação com o outro, um laço entre a escuta e tônus muscular: converse com o bebê.
Terceiro: O sistema vestibular está ligado às funções psíquicas. E todos os sistemas precisam se conectar para que as fronteiras corporais se estabilizem. Assim, quanto menor a criança ou prematura, mais está submetida a uma sensibilidade profunda e às forças da gravidade e necessita de atividades corporais de dar apoio, como o enrolamento.
Quarto: Quando não há uma relação afetiva e comunicativa entre o bebê e os cuidados primordiais, após o nascimento, pode haver um desabamento tônico podendo gerar no bebê uma reação de assassino da função parental (bebê killer). Ainda: movimentos esteriotipados, rígidos, sincrônicos, contração dos membros, movimentos caóticos, bruscos, de grande amplidão, instabilidade postural, desregulação entre a parte baixa e a parte alta do corpo, esticamento ao invés do agrupamento.
Quinto: Casos de Hipoxia (baixo teor de oxigênio no cérebro) ou Anoxia (ausência de oxigênio e um agravante da hipoxia) também podem causar desorganização corporal. Bem como: refluxo gastroesafâgico, retenção, encoprese e falta de investimento na bacia (que é um ponto de articulação e precisa de investimento para, futuramente, atender à marcha, o sentar, o engatinhar, a coordenação). Situações de operações cardíacas ou digestivas, tendenciam a se afastar do traço da dor. E o Bebês em desenvolvimento normal são imprevisíveis, fluidos, com movimentos variáveis e complexos.
Sexto: A intervenção nos Períodos Sensíveis (3 e 6 meses) - onde podemos obsevar os movimentos gerais do bebê, sua motricidade espontânea - possui um alto valor prognóstico: tão preditivo quanto uma ressonância magnética. Nas sessões o psicanalista atua como um Terceiro tempo pulsional, O grande outro, a Lei do Pai e, junto dos pais, acreditar, pois se você acredita no outro, o outro vira sujeito. Busque um profissional para oferecer apoio de formatação e tratar as informações sensoriais (segurar, conter, dialogar). Isto já é um trabalho psíquico.
8 de jul. de 2019
Como e quando falar sobre a morte com crianças?
Não existe idade certa para falar sobre a morte, porém, a criança pode demonstrar curiosidade, seja porque vivenciou uma perda, assistiu no desenho ou ouviu alguém usar a expressão e, daí, já é um sinal para manter a via aberta para falar sobre o assunto. Exemplos utilizando o ciclo da natureza, livros infantis, desenhos e filmes, são recursos importantes: o feijãozinho no algodão, a planta no jardim, o animal que nasce, cresce, reproduz e morre (a escola também faz este papel de mediação, embora, sem dizer que está fazendo).
Talvez a criança apresente medo de estar sozinha ou de perder membros da familia que ainda estão vivos; pode voltar a estágios anteriores de desenvolvimento (exigir mais atenção, falar como um bebê, etc); apresentar insônia, perda de apetite, diminuição do desempenho escolar e até vontade de estar com a pessoa que morreu. Faz parte do viver, de quem, pequeno ficou, para elaborar a morte.
Recomendações aos adultos:
1. Não use expressões como: "ele viajou para bem longe", "adormeceu", ou "virou estrelinha". As crianças costumam compreender o que é falado de forma literal e as expressões anteriores podem alimentar o medo de morrer e ser abandonado, trazendo mais ansiedade e confusão. Ainda, por verem personagens de desenhos animados que "morrem" e "renascem", tantas vezes os questionamentos vem e vão, compondo o processo de elaboração das situações do real, para além do pensamento mágico, característico da primeira infância.
2. Permita, se for a vontade da criança (desde que antecipe o que vai ver e ouvir, explicando que aquele ritual ajuda as pessoas a cuidar da saudade, pois terão um tempo para se despedir). Se a criança não quiser ver o corpo ou participar de qualquer ato, não force.
3. Incentive a participação nas tarefas de se despedir de objetos/guardar alguns, mas evite mudanças drásticas, com objetivo de esquecer rapidamente o acontecimento; incentive que a criança sinta-se bem, mesmo na ausência da pessoa que morreu, deixe-a brincar e envolver-se em novas atividades.
• Quando e como dar a notícia?
Após o primeiro tempo de maior intensidade e confusão, procure um local apropriado para explicar o que aconteceu de forma simples e sincera. Por exemplo: "Sabe o vovô, que estava no hospital? Ele morreu, então, não estará mais conosco. Estou muito triste, por isso você poderá me ver chorando em alguns momentos". Se for um acidente, podemos dizer que os médicos e os enfermeiros fizeram o seu melhor para "consertar" o corpo, mas, às vezes, o machucado é grave e os medicamentos não puderam curar. Qualquer explicação deve ser feita com poucas palavras. Mas, se ainda assim, houverem muitos questionado, escolha a verdade, sempre, pois os adultos também não entendemos tão bem tudo o que acontece. Ainda, peça ajuda de outro adulto menos envolvido com as emoções da criança para ajudar.
Dela - a morte - não podemos escapar. Mas podemos esculpir um caminho de consciência menos doloroso (ou pelo menos acreditar que pode ser assim, enquanto der).
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