18 de fev. de 2016

Sobre insistir...

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Ele fazia seus desenhos detalhados e discorria em sua conversa singular comigo e com os próprios pensamentos:

- Ei tia, vamos!
- Pra onde?
- Desenhar outro.
- Sim, vamos. O que vai fazer?
- Nabos
- Nabos? E onde encontrou estes nabos?
- No buraco.
- Que buraco?
- O pluto estava no acampamento também... 
- Sim, o pluto estava no acampamento.
- Ei tia, agora é a sua vez.
- Minha vez de que? 
- Pintar a coleira de verde.
- Ah, agora eu vou pintar também! Certo... Estou indo bem?
- Agora aqui, tia. Pinta direitinho.
- Ok, vou fazer com cuidado. É assim? Estou indo bem? 

Eu acompanhava com olhar atento e perguntando vez ou outra sobre o meu desempenho na pintura. Finalizei a minha parte e enquanto ele continuava a pintar, informei que pegaria o celular para registrar o desenho, como faço vez em quando, o que contribui para ativar as memórias das sessões anteriores, pois sempre revemos juntos, as imagens ou vídeos. 

Enquanto eu abria a câmera do celular que estava em registro frontal, ele levantou sobre a cadeira, pôs a mão na minha cabeça e com leves toques, pronunciou:
- Muito bem tia, você foi bem!

Ah gente! Achei o máximo a reação. Um espelho que reflete nossas sessões, estímulos e afeto. A foto registra bem o momento de boa surpresa e alegria.

No papel, o diagnóstico é de autismo. Em nossos encontros o acolhimento é além-diagnósticos... E o resultado são surpresas como esta, por isso, acreditem no poder do exemplo e do afeto!

Mayara Almeida
Psicóloga - CRP 13/5938
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12 de fev. de 2016

"Minha mãe não sabe brincar".

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Há alguns meses atendendo uma criança, eis que num atendimento apenas com a mãe, ela relata: 

- "Eu não sei ser assim, como você, com esse jeito todo com as crianças. Você aparece na porta e os olhos dele brilham... Eu sou mãe, mas não tenho jeito com crianças". 

Ela é professora de educação infantil, mãe de duas crianças, já foi criança um dia e agora travava uma batalha interna entre como sabia ser e talvez como fizeram-na acreditar que deveria cusar de crianças, principalmente as suas. Isso deve machucar bastante. Então, tive uma ideia que poderia, certamente, beneficiar a criança atendida pois aliviaria a mãe. Combinei que se a criança aceitasse, na próxima sessão, ela participaria e brincaríamos juntos. 

Na semana seguinte, entrei na sala com o paciente e a sessão acontecia naturalmente, quando iniciei: 

- Ah, eu tive uma ideia! Que tal se convidarmos a mamãe para brincar com a gente? 
- Não. Não quero.
- Tá certo, mas o que você pensa sobre isso? 
- Não. Aqui é só eu e você. 
- Sim, é verdade. Aqui é o seu espaço comigo. Mas será que hoje a mamãe poderia brincar com a gente? 
- A mamãe não sabe brincar. 
- Ah não? E se nós ajudássemos? Aí ela pode aprender. Se você não gostar, é só dizer, e então, ficaremos só nós dois.
- Tá bom. Vamos chamar a mamãe. 

E a mamãe entrou, meio tímida, mas sorriu, observou, mexeu nos bonequinhos, usou alguns e enfim, brincou. Brincamos. A criança conduziu, participou bem e não pediu para a mãe sair. Não há uma regra, mas neste caso houve uma necessidade de integrar a mãe e a criança em suas subjetividades. Porque saber brincar tem a ver com disponibilidade afetiva e confiança, antes de tudo, em si mesmo.

Mayara Almeida
Psicóloga - CRP 13/5938


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28 de jan. de 2016

Quando o seu colo é o "setting".

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Ele chegou nos braços da mãe. Ela informou que naquela tarde, num dos seus acessos de birra, se jogou no chão e machucou feio o queixo, que por sinal ainda estava manchado de sangue. Olhei pra ele e do braço dela veio para o meu. Em silêncio e com o rostinho assustado. A mãe explicou que tinha saído muito sangue mas já estava melhor. Entramos na sala e informei: hoje vamos descansar um pouco certo? Ele concordou e sentamos na cadeira do papai: ele com a cabeça no meu colo e os braços por dentro, encolhido. Perguntei se queria que eu cantasse uma música, mas disse que não. Perguntei se queria carinho e disse que sim. Em menos de cinco minutos adormeceu profundamente. Eu respeitei o seu silêncio, sono, descanso, necessidade de calmaria. Às vezes, a criança não quer brincar. O grau de comprometimento é tão alto que não há espaço para o lúdico, a imaginação. Então, adormecer e descansar de si mesmo, talvez também seja uma forma de alívio.

Mayara Almeida 
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