28 de set de 2014

Sexo e Sexualidade via internet

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A parte mais difícil de falar sobre sexo é que quando você anuncia o assunto, muitas pessoas já se animam, esperando a coisa, o ato, a cena, a cópula, a imagem. Outras vezes, ocorre a associação a algo pornográfico, sujo, feio, embora um dos meios mais lucrativos da pornografia é a pornofonia, representada pelo “Disk Sexo”, que não está associado a imagens, apenas à fala, palavras e fantasias de quem está do outro lado. Mas não é isso. A ideia é falar tecnicamente, apresentando o sexo e suas relações com o mundo atual, considerando, pessoas, cultura e variáveis intervenientes.
As pesquisas dizem que os usuários do sexo via internet são, em sua maioria, ainda, do sexo masculino (talvez pela importância dos sentidos visuais e auditivos: vê-se e ouve-se no vídeo); já as mulheres consomem, em média, 70% de produtos sexuais do mercado erótico: pequenos objetos, ou grandes objetos. Como dizia Lacan: “a mulher vai no real da coisa”.
Para muitos indivíduos, sexo e sexualidade ainda são assuntos polêmicos e muitas vezes cercado por mitos, tabus, verdades e inverdades. No meio de toda essa indecisão, cada vez mais a internet ocupa espaço na vida das pessoas, mudando hábitos na escrita, na linguagem e no contato do indivíduo com o outro. E claro, o sexo e a sexualidade não ficaram de fora deste processo.
Entretanto, apesar de ainda existirem tabus, o sexo e a sexualidade já fazem parte da cultura de uma forma menos proibida, o que não significa ausência de censura e que provavelmente, sempre existirá, considerando principalmente, as questões religiosas. Por vezes, nem é preciso ser curioso demais para encontrar o oferecimento sexual na internet: você pode estar buscando uma música, uma receita, daí quando abre a página, geralmente ao lado, alguns anúncios estão lá: clique aqui, veja isso, etc.
Talvez em razão da própria origem da palavra: o sexo, o órgão, que sempre foi algo que devia ser mantido guardado; ou seria escondido?, tornou-se bagagem excessiva para alguns suportarem.
Todo esse fervor sexual que se apresenta, considero uma resposta da sociedade que está escassa de afeto, toque e tato. E aquilo que é proibido, vivencia a tendência do desejo obrigatório. Assim, nestes tempos modernos, deseja-se aproveitar qualquer espaço para sensualizar ou mesmo atuar sexualmente. A internet está esborrando sexo: seja o ato (em vídeos), seja o próprio desejo 9em palavras, imagens e propagandas convidativas)
Para a Psicanálise, a sexualidade está diretamente relacionada à libido (pulsão), fantasia, desejo, erotismo que reage ao toque, à escuta, à visão, ao olfato e que, não está só relacionado ao órgão sexual, mas com o corpo, como um todo, tendo o prazer como a sua meta e só secundariamente vindo a servir às finalidades de reprodução.
Muitos usuários de site e chats eróticos, de encontros ou mesmo pornográficos apresentam papéis diferentes em situações diferentes porque buscam ser aceitos pelos outros, ou mesmo para os seduzir. E no espaço virtual há uma possibilidade menor de sermos ‘desmascarados’. É possível que quando um homem, ou mesmo uma mulher se faz passar por alguém do sexo oposto, esta pessoa esteja ‘vivendo’ sua homossexualidade, mas também pode ser que esteja experimentando suas fantasias sexuais ou mesmo exercendo sua criatividade. Só será possível escolher uma das opções se tomarmos uma análise pessoal e individualizada.
Eu acredito que sujeitos saudáveis, farão bom uso do sexo via internet e da liberação dos costumes, Já os menos estruturados mentalmente, farão outro uso, que pode levar à descoberta de patologias, pois a linha que separa o saudável do patológico é muito tênue, e nós buscamos respostas no nível de separá-los. Poderíamos dizer que se uma pessoa usa a internet para sexo virtual com o objetivo de encontrar sexo real, isto estaria dentro do saudável, mas se usa para fugir de relacionamentos reais, isto já poderia estar no quadro patológico. O voyeurismo (prazer de olhar intimidade de outros) e exibicionismo (prazer de mostrar suas intimidades para os outros) são duas formas de comportamentos sexuais patológicos que se encontram e se complementam na internet.
O sexo também pode estar dentro do grupo das adicções (vícios). Existem, inclusive, grupos de autoajuda para os compulsivos sexuais. Também é alvo dos movimentos machistas, como se apenas o homem pudesse desfrutar do prazer sexual.
Reich, um psicanalista austríaco, discípulo de Freud, falou sobre a miséria sexual, nos anos 60, 70... E acredito que ainda há: o sexo via internet, é como um bolsa família, para alguns. Não é que acabou o desejo, mas a libido foi transferida para o computador, que certamente, precisamos pensar, dispõe de custos-benefícios que são oferecidos nesta situação do sexo virtual: o sujeito pára a qualquer hora, continua a qualquer hora, escolhe o parceiro ou parceiros sem pré-julgamentos, entre outros. De qualquer forma, considero o sexo virtual vinculado a uma espécie de gozo solitário, e este, seria o custo, ou um dos custos.

Ainda, gostaria de trazer reflexões sobre dois aspectos do sexo virtual que considero interessantes: o esperado, que seria conseguir chegar ao clímax, ao orgasmo; e o aspecto cômico, porque o ato sexual fica meio bobo se formos pensar que é uma fantasia assumida. Pode ser excitante, saudável ou um problema, depende de como se atua e do que se espera quando se atua. Ou seja, o desejo depende do desejo. O sexo depende do desejo e é necessário (porque o prazer é intrínseco ao sujeito mano), possível (porque faz parte da nossa atualidade), contingente (considerando a grande possibilidade de que o algo – o orgasmo – não aconteça) e impossível (porque como dizia Lacan: “não há relação sexual”; e virtual então...).

Texto apresentado em junho/2014, em reunião do grupo Papo Cabeça - 
Campina Grande/PB, na Universidade Federal

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