3 de out. de 2026
Compulsão por jogos de apostas
O anúncio do Ministério da Saúde sobre a criação de um novo serviço do SUS voltado ao atendimento de pessoas com compulsão por apostas online marca um avanço importante na forma como o Brasil começa a tratar esse problema como uma questão de saúde mental — e não apenas como falta de controle ou irresponsabilidade individual.
As chamadas “bets” fazem parte de um fenômeno relativamente recente no país, mas que cresceu de forma muito acelerada. Hoje, as apostas online estão na palma da mão, disponíveis 24 horas por dia, com forte estímulo publicitário e promessas de ganho rápido. Do ponto de vista psicológico, esse tipo de jogo ativa mecanismos muito potentes do nosso sistema de recompensa cerebral. A lógica da recompensa variável — quando a pessoa nunca sabe exatamente quando vai ganhar — é a mesma que sustenta outros comportamentos aditivos. Isso aumenta a excitação, a expectativa e dificulta a interrupção.
O que muitas pessoas ainda não compreendem é que a compulsão por apostas não é apenas um “mau hábito”. Ela pode se tornar um transtorno, com impactos profundos na vida financeira, emocional e familiar. Estudos já apontam prejuízos econômicos e sociais bilionários no país, mas, para além dos números, estamos falando de endividamento, conflitos conjugais, rompimentos familiares, ansiedade, depressão e, em casos mais graves, risco aumentado de ideação suicida.
Um ponto muito relevante desse novo serviço é que ele oferece atendimento gratuito por teleconsulta, com sessões de aproximadamente 45 minutos, podendo chegar a até 13 encontros com uma equipe multiprofissional formada por psicólogos, terapeutas ocupacionais e, quando necessário, psiquiatras. Isso amplia o acesso e reduz uma das principais barreiras ao cuidado: a vergonha. Muitas pessoas demoram a buscar ajuda porque sentem culpa, medo de julgamento ou dificuldade de admitir que perderam o controle.
O acesso acontece pelo aplicativo Meu SUS Digital, onde o usuário realiza um autoteste para identificar o nível de risco. Casos moderados ou graves já são encaminhados automaticamente para o atendimento online, enquanto situações mais leves recebem orientação para procurar a rede presencial. Essa triagem inicial é importante porque permite que o cuidado seja direcionado de forma mais adequada.
Outro aspecto que merece destaque é a inclusão de familiares e pessoas da rede de apoio no atendimento. A compulsão por apostas raramente afeta apenas quem joga. O impacto costuma atingir todo o sistema familiar. Por isso, envolver a família no processo terapêutico não é apenas um detalhe — é parte fundamental do tratamento.
Além do atendimento clínico, a disponibilização de uma plataforma de autoexclusão para bloquear o acesso aos sites e reduzir a exposição às propagandas também é uma estratégia interessante. Sabemos que, em casos de comportamento compulsivo, diminuir estímulos ambientais é uma medida concreta de proteção. Não se trata apenas de “força de vontade”, mas de criar barreiras que ajudem a interromper o ciclo.
Do ponto de vista da saúde pública, essa iniciativa sinaliza um reconhecimento importante: estamos diante de um problema coletivo que precisa de resposta estruturada. A compulsão por apostas não nasce no vazio. Ela se insere em um contexto de vulnerabilidade econômica, promessa de dinheiro fácil, pressão social por sucesso rápido e alta exposição digital.
Por fim, é essencial reforçar que buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É sinal de responsabilidade consigo mesmo e com quem está ao redor. Quando o Estado amplia o acesso ao cuidado, ele também contribui para diminuir o estigma. E quanto mais falarmos sobre o tema de forma aberta e informada, mais chances teremos de transformar sofrimento silencioso em possibilidade real de tratamento e recuperação.
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