23 de out. de 2026
A Caixa de Brinquedos: o que é meu e o que preciso desapegar
Desde muito cedo, começamos a ocupar lugares nas histórias das pessoas que nos cercam: filho, irmão, neta, aquele que cuida, aquela que precisa de cuidado, o responsáveis, q sensível, o forte, a que não dá trabalho. Em algumas famílias, aprendemos a apaziguar conflitos. Em outras, a esconder a tristeza, a antecipar necessidades ou a acreditar que precisamos estar sempre disponíveis para que o amor permaneça.
Imagine uma caixa de brinquedos. Dentro dela, há objetos de diferentes tamanhos, cores e formas. Em nossa caixa, podem existir brinquedos que escolhemos e também aqueles que recebemos sem ter poder escolher. Expectativas que vieram dos nossos pais, medos que atravessaram gerações, responsabilidades que assumimos cedo demais e sentimentos que aprendemos a guardar porque não havia espaço para expressá-los.
Há coisas emprestadas, quando assume a tarefa de cuidar da tristeza de alguém, sustentar a harmonia da casa ou corresponder a uma imagem que construíram para nós. Também existem desejos esquecidas, adiados. Brincadeiras que deixamos de vivenciar. Partes de nós que ficaram silenciosas para que outras pessoas pudessem ocupar todo o espaço. Olhar para essa caixa exige delicadeza para começar a distinguir: o que é meu? O que escolhi levar comigo? O que foi emprestado e já não preciso carregar? O que assumi por medo, culpa ou necessidade de ser aceito?
Talvez amadurecer também seja aprender a organizar essa caixa, fazer uma faxina em nossos brinquedos da infância e assumir que podemos amar alguém sem assumir todas as suas dores, cuidar sem nos responsabilizar por tudo e pertencer a uma família sem precisar ocupar, para sempre, o mesmo lugar.
Algumas coisas poderão ser devolvidas, outras, ressignificadas e algumas permanecem conosco porque fazem parte daquilo que escolhemos ser. Podemos abrir a caixa com curiosidade, reconhecendo que nem tudo o que carregamos nos pertence. E nem tudo o que nos pertence precisa continuar escondido no fundo da caixa.
Muitas vezes, a gente se dá conta, não de um jeito organizado, racional, mas de um jeito caótico, como quem tropeça em uma caixa antiga e, sem querer, acaba descobrindo o que ainda estava lá. Acredito que parte de crescer, ou de simplesmente existir… É aprender a soltar E reconhecer quais coisas já cumpriram o que tinham que cumprir. Que algumas dores não precisam ser mantidas como lembranças vivas. Que certas culpas, expectativas, idealizações, um dia, precisam ir. Talvez a vida seja esse balanço constante entre deixar a bagagem mais leve e garantir que o essencial ainda esteja ali. Sei que não há resposta definitiva, nem um método exato para "fazer direito", mas vez ou outra, vale parar, abrir a caixa, olhar com cuidado para o que ficou e escolher, com carinho, o que levamos adiante.
M. ✨

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