19 de out. de 2026
Desaparecendo
Viajar é uma tentativa de desaparecimento. Dizia um trecho do artigo que li, dia desses. Exatamente, após minha chegada no destino planejado. Comentei com colegas e, entre algumas opiniões, chamou minha atenção uma fala: "desaparecemos para alguns, mas aparecemos para outros". Isto me revelou a dificuldade que enfrentamos, de descansar, diminuir ou pausar as interações e agitações da rotina.
Agora, corta para: perdi meu celular nesta viagem. A perda ocorreu fora do país, na noite anterior à viagem de volta. O celular, para mim, faz a função de mediar comunicações afetivas, familiares, de trabalho, anotações, estudos, projetos e planos escritos. Eu "desapareci", mas não totalmente, pois enviei mensagem para minha irmã através do Instagram, usando o tablet e deixei um aviso no stories, para alcançar parte das pessoas que costumo me comunicar (as redes sociais precisam nos servir, e não o contrário).
Do lado de cá, do desaparecimento, eu existi: usei o tablet para seguir o necessário e como despertador, tomei café da manhã, comprei as últimas lembrança física da viagem e também uma lâmpada "mágica". Dona Guadalupe, dona da loja, vendeu a lâmpada do aladim, sem saber que eu levava ali, um resgate da minha leveza, que foi colocada à prova, quando me dei conta que estava tão longe de casa e sem celular. Era final da viagem e o meu corpo me dizia para resolver racionalmente e ir sentindo aos poucos (um salve, às meditações, respirações, escrita terapêutica, socos no saco de box, músicas relaxantes e animadas, terapia e a maturidade que, só chega, quando eu vou buscar).
Enquanto eu finalizava as malas, naquela última manhã, coloquei músicas e torci para que o aparelho não fosse acessado, já que não consegui bloquear os chips das operadoras. Agora mesmo, enquanto escrevo, durante o voo, reconheço o meu incômodo: não foi perder as fotos e vídeos, pois eu vivi os momentos, sinto no corpo e conseguirei recuperar algumas; me incomodou, perder o que escrevi, o que salvei para ler depois, pois não conseguirei recuperar este histórico. Me incomodou perder as palavras, porque há exatos dois meses, o celular anterior quebrou, então, eu atravessei este processo de recuperação incompleta, recentemente. Literalmente, ainda em recuperação da recuperação anterior. Assim, me atrevo a contar a história: ela fica, mesmo depois que tudo se desaparece - celular, fotos, textos, pedaços da memória. Sigo me salvando pela palavra. E desaparecendo, sempre que possível ou necessário.
M.✨
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